Home Colunistas Drive-In Para Quem?

Drive-In Para Quem?

6 min read
Comentários desativados em Drive-In Para Quem?
0
90

Há quem se fala que com a passagem da pandemia seremos outros. Com a chegada de uma doença que comove o mundo como um todo, famílias de alto e baixo status social foram e estão sendo afetadas direta e indiretamente. Todos perdem. Não há rico ou pobre que seja menos afetado. Perdem em bens materiais ou com sua própria vida ficando claro o quanto não somos nada e que o egocentrismo não leva a nada além de uma cama na UTI com intubação, além das cinzas mortais ou o fechar a porta do túmulo.

Já estamos quase chegando ao sétimo mês. Há quem se fala de reinventar, o “novo normal” e o retorno gradual das atividades econômicas. Foi nesse contexto que o nosso país viu que a ideia de “Estado mínimo” não serve e nunca servirá para os seus. Quem foi o primeiro a nos socorrer – mesmo que tardiamente? O Estado. Falar e listar as desigualdades e os direitos feridos neste contexto de pandemia, não daria nesse artigo.

Mesmo passando por toda essa situação de mortes e mais mortes, infecções e mais infecções, um câncer chamado exclusão social paira e preocupa. Um dos primeiros meios “culturais” a se implantar e a tirar a população de casa foi o famoso: drive-in. Nesse modelo, os carros estacionam e os seus passageiros podem apreciar uma peça teatral, musical e até mesmo um filme como se fosse um cinema. No mês passado uma declaração da Pabllo Vittar me fez refletir e escrever esse artigo. A mesma ao ser convidada para um show nessa modalidade drive-in respondeu: “Primeiramente, para isso a pessoa tem que ter carro. Quem tem carro no Brasil? Não tem como eu subir num palco sabendo que tem um monte de gente que não está nem podendo trabalhar. Essa não é a energia que quero pra mim.”

Sim, não mudou nada. Absolutamente nada. A forma de excluir é igual a modalidade de outrora. É muito cômodo oferecer serviço cultural para uma pequena camada. É muito cômodo fechar os olhos e não cobrarmos a setorização cultural na nossa periferia, nas vielas, onde o povo pobre mora e necessita deste meio para ter acesso ao imaginário transcendental e ao crescimento cultural. Falar em cultura, principalmente aqui em Salvador, é falar em exclusão. Pense comigo: uma pessoa que mora no Subúrbio de Salvador ou no miolo da cidade, tem que pegar muitas conduções para chegar a um cinema, a um teatro ou a um museu. A exclusão já começa pela distância, pela tarifa de mobilidade, pelo não incentivo do Estado.

Em suma, faço a seguinte pergunta: drive-in para quem? Quais seres seremos após essa pandemia? Há muito que lutar, cobrar e fazer efetivação da inclusão. A exclusão já existe o bastante e não precisa de reforço. O que precisa de reforço são nos olhares ao horizonte com os pés no presente dando as mãos e nos ajudando a atravessar essa ponte, a ponte da união.

Por Mateus Mozart Dórea – Filósofo pelo Destino. Graduando em Direito pela Universidade Católica do Salvador.

Carregar Mais Artigos Relacionados
  • Local do deslizamento - um ano sem resposta dos governantes e vidas em risco

    A Gamboa Grita por Socorro

    Comunidade costeira à Baía de Todos os Santos, a Gamboa há um ano sofre as consequências d…
  • O Anjo do Subúrbio – Associação Bom Samaritano

    Estamos imersos em uma pandemia e com ela a solidariedade surgiu de forma tão bela para co…
  • A Injustiça Brasileira

    Vivemos em tempos tão inseguros que assola vidas e a nossa democracia. Desde quando a pand…
Carregar Mais Por Mateus Mozart Dórea
  • Local do deslizamento - um ano sem resposta dos governantes e vidas em risco

    A Gamboa Grita por Socorro

    Comunidade costeira à Baía de Todos os Santos, a Gamboa há um ano sofre as consequências d…
  • O Anjo do Subúrbio – Associação Bom Samaritano

    Estamos imersos em uma pandemia e com ela a solidariedade surgiu de forma tão bela para co…
  • A Injustiça Brasileira

    Vivemos em tempos tão inseguros que assola vidas e a nossa democracia. Desde quando a pand…
Carregar mais em Colunistas
Comentários fechado.

Vejam também

A Gamboa Grita por Socorro

Comunidade costeira à Baía de Todos os Santos, a Gamboa há um ano sofre as consequências d…