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Entrevista – Maestro Radamés Venâncio

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Por Mateus Mozart Dórea – Filósofo pelo Destino. Graduando em Direito pela Universidade Católica do Salvador. Com contribuição de Tailan Souza.

A música não é música sem o maestro. É com ele e por meio dele que as coordenadas de uma produção, de um novo álbum e de ao menos uma gravação musical se torna realidade. Posso aqui relembrar a você de renomados maestros que doam e fazem do seu dom um som. Mas não, hoje só relembro de um: Radamés Venâncio. O mesmo me recebeu em uma tarde de calmaria como o mesmo, intercalado após um ensaio com a “banda do bem” e no Groove Studio aonde muitas das suas inspirações subjetivas tomam forma e nos alcança na voz de nada mais e nada menos que Ivete Sangalo. Sim! É ele que desde a carreira solo da nossa querida cantora baiana, vem dirigindo e dando essas coordenadas como maestro dos shows, álbuns e produções da mesma. É de tamanha alegria que te chamo a desfrutar desse excelente bate papo:

Quem é Radamés Venâncio?

Sou de Arco Verde – Pernambuco. Comecei na música com 8 anos, meu pai é músico, tinha banda de baile no interior de Pernambuco aonde nasci, como ele era músico, me colocou para tocar sax – ele mesmo que ensinava a tocar e a ler a partitura. Com 11 anos faltou um músico na banda dele – que era o tecladista – e o mesmo me disse que seria eu que tocaria. Tive que aprender na marra a tocar teclado e com 14 anos ele vindo para Feira de Santana visitar uns amigos os mesmos alertaram a ele para que me trouxesse para aqui para poder estudar já que lá no interior não tinha uma visão futura na música. Aí meu pai me trouxe. Tinha um amigo dele que na época em 1988 tinha uma banda chamada papa-léguas que me viram e pediram para tocar, gostaram e pediram para ficar na banda. Depois, me mudei para Salvador, cursei música na Universidade Católica e ao mesmo tempo tocava na banda. Foram me vendo tocar, foram me chamando e aos poucos fui galgando espaço entre os músicos até chegar no estúdio WR aonde fiquei por 7 anos – minha maior escola. Quando foi em 1999, Ivete foi para a carreira solo dela e aí me chamou para fazer parte da equipe completando esse ano 20 anos que estou com ela. Esse trabalho com a mesma me fez amadurecer mais ainda porque ela sempre teve uma visão muito musical, ela preza pela música, faz o comercial, mas primeiro faz a música. É bem exigente pois as músicas dela tem que ser muito boas. É um tipo de cantora que não é só do axé music, mas ela canta de tudo.

Quando você começou a sentir o desejo de seguir a carreira musical?

Sabe que nem me lembro? Risos. Quando me vi aos meus 11, 12 anos já estava acostumado com a vida musical em que meu pai me inseriu. É tanto que quando ele me perguntou se eu gostaria de tocar, respondi com firmeza: – Quero! Não falei que queria fazer outra coisa. Meu pai falava que eu iria tocar, mas, ao mesmo tempo, teria que estudar, então iria para a escola pela amanhã e a tarde ia para a Universidade. Já estava em mim! Não tive nenhuma dúvida disso. Sempre pesquisei, estudei, sempre estou atualizando os aprendizados.

Qual música como maestro, ao tocar, te emociona?

É difícil, viu? Um pergunta muito difícil. Mas a música Eu sei que vou te amar é emocionante; atrás da porta é outra bastante emocionante; tem algumas músicas de Stevie Wonder; Mozart e entre outras.

Qual o primeiro instrumento que você tocou e viu que era essa a sua área profissional?

Foi o Sax! Mas quando estava aprendendo a tocar teclado, já tinha uma visão profissional. A banda de meu pai ensaiavam na garagem lá de casa, então, quando eles iam embora, eu começava a ir tocar, mexer nos instrumentos e por curiosidade ligava todos para testar. Na época não tinha escola, não tinha professor, não tinha nem acesso a livros, aprendia tudo de ouvido. Comecei assim, brincando e aprendendo. Quando ganhei meu primeiro teclado, com um monte de som, me identifiquei mais ainda. Era um desafio reproduzir, tirar o som só em escutar os discos de vinil da época.

Quem são os maestros, os músicos que te inspira?

Os que mais me inspiram são: Tom Jobim; João Gilberto em seu disco Amoroso; Wagner Tiso; César Camargo e entre outros que escutei e escuto muito. Gosto também de trilhas de cinema, as vezes pego só a trilha para ouvir. Assisto ao filme e depois vou escutar só a trilha do mesmo.

Foto: https://www.roland.com/br/artistas/teclas/Radames-Venancio/

Em quais bandas o maestro Radamés já passou?

Foram várias. Mas já toquei com Carlinhos Brown; Ricardo Chaves, Armandinho – Dodô e Osmar, Marcionílio, Lazzo, Gerônimo, Daniela Mercury e agora, Ivete. Já fiz participações com Gilberto Gil e inclusive o projeto Ivete, Caetano e Gil. É uma oportunidade única e que marca a minha vida.

Além de ser maestro e diretor musical, Radamés canta ou compõe?

Cantar, não. Risos.

Componho, não faço letras, faço a melodia e mando e aí eles fazem a letra. É o contrário do normal. As vezes a Ivete faz a letra e coloco a melodia, mas muitas vezes é ao contrário. Faço a harmonia, os arranjos… Nunca fiquei parei para escrever, compor. Meu foco é realmente compor melodias.

Como se deu a sua descoberta pela nossa querida Ivete Sangalo?

Na época eu trabalhava com Ricardo Chaves na WR e foi quando surgiu a banda EVA que foi aquele “estouro” de músicas com a Ivete a frente. Foi aí que a conheci, mas nunca imaginei que iria trabalhar com ela, mas ela foi crescendo muito. Tanto que, quando surgiu o convite, não pensei duas vezes. O Ricardo queria que eu ficasse, mas foi uma intuição que eu tive e que vem a confirmar a cada dia. Eu poderia dizer que, não iria por já ter algo mais certo e as pessoas muitas vezes não apostavam na Ivete, aquela coisa de falar que seria como outras cantoras que saíram e não deram certo, mas a minha intuição forte disse: – Não, é isso que eu quero! Vou com a Ivete e acredito nela. Hoje é o nosso orgulho, sempre atual, sempre busca novidades. Acabamos de gravar um DVD em São Paulo e ela já tem projetos para novas músicas. Ela sempre me diz que temos que acompanhar a música pois a mesma está rápida, o mercado exige, então, estou procurando músicas para ela gravar e cantar no verão.

Como é a interação da mesma para com vocês? Sabemos que ela é uma simplicidade em pessoa e transmite tanta felicidade para quem a segue.

Quando ela saiu em carreira solo, deu o nome da equipe como: banda do bem. É um apelido, não existe uma marca. Ivete é uma cantora que veio de banda; ela se sente banda, nunca tem tratamento superior, pelo contrário, ela se sente como nós, como banda. Tem artistas que chega, canta e vão embora, ela não, ela quer participar, ela é família! Sempre pego as músicas e passo para ela. Discutimos o repertório, é bem democrático. Às vezes já apronto os arranjos e já levo para ela ensaiar, mas, mesmo assim, sempre tem que mudar algo. Tem o respeito, o carinho, se ela pudesse, abraçaria todo mundo.

Foto: Instagram

Qual a importância e a dimensão da responsabilidade para a sua carreira em dirigir, em ser músico e, também, o mentor musical de uma das artistas mais influentes, premiadas e queridas do público brasileiro como a Ivete Sangalo?

É uma responsabilidade muito grande mesmo. Me sinto empenhado, não tenho essa dificuldade de gerir isso. Me dá prazer! Gosto muito de desafios. Não fico com medo dos projetos que chegam. Se não deu certo, passa para a próxima. Gostaria de fazer mais, muito mais, de poder ajudar os outros, mas ainda é muito difícil a relação com a música. Sou muito reservado, tímido, mas nada disso impede dessa força de vontade de fazer valer a qualidade da nossa produção.

Você ganhou o título de melhor instrumentista em 2008 pelo prêmio Multishow. Qual foi a sensação de ser reconhecido assim nacionalmente e internacionalmente?

O Multishow na época tinha essa coisa de instrumentista, que hoje não tem mais. Eu achava legal pois nunca tinha visto prêmio para instrumentista. Sempre acompanhava e Ivete sempre estava lá, sempre estávamos lá para tocar na premiação. Nesse ano estávamos lá tocando e aí veio a surpresa da minha premiação. Após essa premiação, notei que, outros artistas já me conheciam. Pensei que só era reconhecido aqui pelo Nordeste. As pessoas me olhavam, me reconheciam. Na época foi tudo surpresa. Eu e Ivete lá sentados, ela ganhou o prêmio de cantora e a surpresa: – Melhor instrumentista! Me chamaram. Ela chorou, sentiu mais que eu. Foi emocionante, Mateus.

O que resume o teu sentimento em ter o seu trabalho e toda a sua bagagem profissional como produtor, músico e diretor musical sendo reconhecido internacionalmente ao produzir um álbum premiado com o Grammy Latino como o IS20 – Ao Vivo na Arena Fonte Nova, gravado em 2013 (vencendo na categoria como o Melhor Álbum de Pop Contemporâneo Brasileiro)?

Fico muito feliz e foi um fruto de muito trabalho na época. Foi um ano de preparação, muito mais que esse último aí. O da Fonte Nova é mais musical, as músicas foram cuidadosas e bem escolhidas. Foram mais de 30 músicas. Fico feliz pelo resultado pois foi algo muito bem ensaiado e bem tocado. Dá aquele orgulho, aquela vontade de continuar acreditando em fazer as coisas bem feitas. É possível fazer mais! Foi dado um desafio que se consumou na mesma emoção do prêmio Multishow porque não fazemos nada pensando que terá premiação. Estávamos em um show quando recebemos a notícia. Parou o show! Foi demais! O engraçado foi que um tempo depois, lá em casa, chegou o prêmio e o dela não chegou. Risos! Aí ela me perguntou: – Cadê o meu? Risos. Confesso, Mateus, que não sei se chegou. Vou até perguntar a ela! Risos.

Qual trabalho com a Ivete que te marca profundamente ao lembrar?

O que mais marcou foi o trabalho do DVD no Maracanã; o Pode Entrar e esse da Fonte Nova. Para mim, são os melhores.

Qual a diferença de estar em um trio elétrico no carnaval de Salvador para com a atuação nos palcos musicais?

Há uma diferença grande. Porque assim, o trio é bom, mas o palco é melhor. No carnaval não existe nada melhor que o trio. Tanto é que, no carnaval tocamos um dia no palco e foi estranho tanto para mim quanto para ela. Para tocar é melhor palco, não tem comparação. Fazíamos muito trio parado, mas eu achava muito frio. Trio é para a rua, para andar com o povo.

Há alguma situação vexatória no trio?

Sim, uma vez tive que fazer o som do teclado e ao mesmo tempo a do baixo no teclado porque o baixista não tinha ido. Temos que estar preparado para tudo.

Como Radamés se sente hoje em dia por ter feito diversos trabalhos e realizado várias produções?

Me sinto preparado para fazer mais. Que venha mais! Tem projetos que já fiz que hoje faria diferente. Tem coisas que eu não mudaria nada… Quero fazer mais! Tenho vontade de produzir coisas novas. Tenho esse desejo de pegar pessoas novas e fazer um trabalho de valorização. Ainda farei isso! Falta muita ajuda.

Finalizando a nossa entrevista, vamos para o bate-bola

Para Radamés Venâncio família é? É tudo!

Amigos são? Pra sempre!

Salvador não é Salvador sem? Sem música

Um cantor? Michael Jackson

Uma cantora? Sou suspeita em falar, mas falarei outra: Alicia Keys

Uma cidade? Nova York

Radamés não é Radamés sem? Sem meu instrumento musical. Eu falo por ele!

Uma música? Your Song de Elton John

Um frase: “Tudo que você for fazer, faça com verdade e amor.”

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