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Mãe D’Água: Monte Serrat já foi a casa de Iemanjá

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Se não fosse a pandemia de coronavírus, o Rio Vermelho seria tomado por uma multidão no próximo dia 2 para as homenagens a Iemanjá, a única divindade do panteão das religiões de matrizes africanas que tem seu dia reservado no calendário oficial. Mas, durante algum tempo, a Rainha do Mar em Salvador tinha como seu principal local de culto o bairro de Monte Serrat, localizado na Cidade Baixa. Além disso, a denominação Mãe D’ Água era a mais usada para fazer também referência a Janaína e Iara. Edições de A TARDE mostram uma devoção muito forte a essa divindade em busca de saúde, prosperidade e solução para diversos problemas.

Com o título O culto da Mãe D’Água na Bahia, a reportagem, publicada na capa da edição de 21 de janeiro de 1916, fez críticas ao que chamou de “práticas condenáveis”, mas deu informações preciosas sobre a importância de Monte Serrat na devoção às divindades das águas. Segundo o texto, o culto envolvia os santos do candomblé, mas também as sereias dos poemas gregos.

“Nesta capital, o ponto escolhido para esse culto é Mont Serrat. Num trecho da praia ali exis- tente há um rochedo, onde se vê uma lôca na qual crêem os ingênuos piamente habita a “Mãe d´agua”. Todas as noites, uma romaria de fiéis ali vai levar presentes à rainha das águas, os quaes são atirados ao mar juntamente com cartas a ella dirigidas nas quaes são feitos os appellos e supplicas”. (A TARDE, 26/1/1916, capa).

Culto para Iemanjá já teve Monte Serrat como ponto central | Foto: Arquivo A TARDE | 21. 01.1916

Em 1930, Monte Serrat possivelmente ainda mantinha essa importância. O presente ofertado pelos pescadores do Rio Vermelho, segundo o texto publicado da edição de 6 de fevereiro daquele ano, foi até Monte Serrat. Só após a volta de lá é que começou o samba de roda que o texto, ainda em tom crítico, informa ter acabado em pancadaria.

Entrega de presentes continua a ser feita também no Monte Serrat | Foto: Abmael Silva | Arquivo A TARDE | 29.02.1988

“Domingo, como de costume, partio garbosa do Porto de Sant’Anna, no Rio Vermelho a frota de saveiros e jangadas todos embandeirados festivamente rumo de Mont Serrat.

Ao entardecer fez-se enthusiasmo da partida, porém, desembarcados que foram organisaram ruidoso samba ao lado do fronteiro ao peso do peixe do Rio Vermelho”. (A TARDE, 6/2/1930, capa).

Reportagem indica que presente saía do Rio Vermelho e ia até Monte Serrat para só então retornar | Foto: Arquivo A TARDE | 06.02.1930

Igreja de pescador

E eis que as informações das reportagens são também confirmadas na ficção. Em Mar Morto, Jorge Amado (1912-2001) diz que Monte Serrat é lugar que tem importância para a devoção dos pescadores, inclusive a igreja.

“Livia espera e é bela nessa espera, ela é a mulher mais bela da beira do cais e dos saveiros. Nenhum mestre de saveiro tem uma mulher como a de Guma. Todos dizem isso e sorriem todos para ela. Todos gostariam de tê-la nos braços musculosos das travessias. Mas ela é somente de Guma, casou foi com ele na Igreja de Monte Serrat, onde se casam os pescadores, os canoeiros e os mestres de saveiro. Mesmo marinheiros que viajam por mares longínquos, em paquetes enormes, vêm casar na Igreja de Monte Serrat, que é a igreja deles, trepada no morro, dominando o mar. Ela casou ali com Guma e, desde então, nas noites do cais do seu saveiro, nos quartos do Farol das Estrelas, na areia do cais, eles se amam, confundem os corpos sobre o mar e sob a lua. (Mar Morto, Jorge Amado, pp.18-19).

Súditos e afilhados

A coleção das edições de A TARDE também aponta que Monte Serrat era o local onde os devotos da Mãe D´Água deixavam os seus pedidos e, também, presentes. Na reportagem de 21 de janeiro de 1916, três bilhetes com pedidos de ajuda foram transcritos. Em todos eles, estão as saudações à maternidade da Mãe D’Água e reiteração de sua realeza.

“Minha querida mãezinha do meu coração. Eu espero saber de vós em sonho se vós arrecebestes o seu bandolim. Caso falte alguma cousa quero que me digas em sonho”. (A TARDE 21/1/1916, capa).

A carta não está assinada, mas o primeiro pedido do remetente é a graça de receber saúde que se estenda aos seus parentes. Já Francisca Maria de Jesus pediu ajuda para ganhar no jogo do bicho e assim comprar uma casa. Francisco Rodrigues Sobral desejou obter prosperidade. Este se dirigiu a Iemanjá usando vários títulos para saudá-la:

“Dignissima Senhora rainha do mar. Habita no oceano. Glória a Deus nas alturas. Francisco Rodrigues Sobral salva sua mãe no anno de 1916 e pede saúde e felicidade, augmento em seus negócios para que possa fazer os compromissos desejados”. (A TARDE 21/1/1916, capa).

Anos depois, uma reportagem na edição de 4 de fevereiro de 1935 apresentou a história do apelo a Mãe D’Água feito por Maria Ignácia Ribeiro dos Santos para resolver o drama que vivia. Segurando um quadro com imagem que parece ser a do Bom Jesus ela fez, de acordo com o texto, uma espécie de comício na porta do Fórum. Sua alegação: emprestou o dinheiro que o pai lhe deixou de herança e mais uma quantia que encontrou numa estrada a sua madrinha, Flora Telles Magalhães, para que o marido desta investisse em um negócio com burros e fumo. Segundo a narrativa de A TARDE, Maria Ignácia disse que não recebeu o percentual de juros acertados. Seu desespero era não ter como sustentar os seis filhos e, por isso, queria uma providência do juiz de órfãos. Além da devolução do dinheiro, Maria Ignácia desejava receber uma casa, doada pelo Estado.

O relato de Maria Ignácia exposto no texto fica cada vez mais interessante. Ela contou que o seu pai, ao que se pode interpretar, a iniciou no culto a Mãe D´Água, pois ela diz que esta é sua madrinha no “coco”, o que pode indicar cabeça. E, de acordo com ela, é a mesma divindade que dá força ao juiz, João Mendes. Seria esta autoridade alguém próximo ao candomblé como foi tão comum, especialmente no período em que esta prática religiosa sofria as mais variadas perseguições e buscava protetores nas elites baianas? Ela inclusive promete o que parece ser um presente para a sua madrinha, a Mãe D’Água, quando ganhar a sonhada casa própria por meio da expressão “matú-mató d’agua doce”.

“Dito isto, Maria Ignacia Ribeiro dos Santos, este é o nome da afilhada da “mãe d´agua”, poz as mãos nas cadeiras e cantando ficou à espera do juiz de Orphaos, dr. João Mendes, para dar o geito na vida della. Em torno, muitos populares apreciavam a curiosa dansa e a maneira de falar da extravagante peticionaria” (A TARDE, 4/2/1935, p.2).

Filha da Mãe D´Água fez protesto na porta do Fórum para resolver questão sobre dinheiro emprestado e conseguir casa | Foto: Arquivo A TARDE | 04.02.1935

Este relato de Maria Ignácia que diz ter a Mãe D’Água como sua madrinha e com indicações do que parece ser uma iniciação semelhante a do candomblé é indicativo de como essa divindade “Mãe D’Água” reuniu um conjunto de deusas com procedências variadas: africanas, encantadas europeias, como a sereia, a indígena Iara e Janaína, que é largamente citada na umbanda. Nas narrativas de A TARDE, por exemplo, a denominação “Iemanjá” e o seu protagonismo em títulos de reportagens aparece com mais força a partir de 1950: A Festa de Yemanjá – Os pescadores levaram seus presentes à Rainha do Mar” (A TARDE 3/2/1950, p.2) . Anteriormente, as menções são sempre a mais de uma denominação:

Denominação Iemanjá começa a se tornar mais comum como principal homenageada da Festa do Rio Vermelho. Antes era ‘Mãe D´Água’ | Foto: Arquivo A TARDE | 3.2.1950

“A cidade encheu, na manhã de hoje, o arrabalde do Rio Vermelho prestando as suas homenagens à Janaína, a Mãe D’Água ou Yemanjá, misteriosa senhora que habita num palácio maravilhoso no fundo do mar que tem casa também no fundo dos rios e das lagoas, onde aparece como a Yara, a linda mulher de perigosos olhos verdes e cabelos cor de ouro”. (A TARDE, 2/2/1944, p.2).

A devoção a Iemanjá reúne integrantes dos mais variados segmentos sociais | Foto: Arquivo A TARDE/ 02.02.1944 

 

Diversa

Essa divindade com tantas características plurais foi identificada nos estudos de Edison Carneiro (1912-1972). Em Ladinos e Crioulos, Carneiro relata como, em 1897, Nina Rodrigues (1862-1906) já se referia a essa intersecção entre Iemanjá e a sereia europeia e que relatou ter visto duas imagens de gesso relacionadas a essa associação no Terreiro Gantois. Defensor de um modelo específico do culto nagô, Carneiro diz que celebrações públicas, como a do Rio Vermelho, seguem bem mais o estilo de uma divindade híbrida do que o que considera o rito nagô para Iemanjá.

“O rabo de peixe, os olhos verdes, os cabelos compridos, as canções irresistíveis de amor, toda a concepção européia da sereia estão em desacôrdo com Yemanjá. Sob este nome, nas festas públicas não se cultua uma deusa africana da nação nagô. Cultua-se uma divindade brasileira das águas, fruto do sincretismo das concepções nagô, ameríndia e europeia dos deuses aquáticos. E, na verdade, a influência maior é a da Loreley dos brancos, que nada mais perdeu do que o nome”. (Ladinos e Crioulos, Édison Carneiro, p. 167).

Mas essa separação tão rígida de Carneiro é uma preocupação dos devotos da rainha do mar? Possivelmente não. Se hoje o Rio Vermelho ganhou a proeminência e Monte Serrat já não integra o trajeto da festa, a denominação “Iemanjá” é que assumiu o protagonismo como já foi o do Mãe D’Água.

E, mesmo atualmente, a multidão que se reúne no Rio Vermelho tem as mais variadas crenças, mas quer colocar ao menos a rosa branca para Iemanjá da mesma forma que, em 1916, os devotos foram até Monte Serrat pedir à Mãe D’Água uma casa, sucesso nos negócios e deixaram um carneiro e um bandolim como presente. A potencialidade dessa devoção permite a inclusão de grupos tão diversos como uma colônia de pescadores, povo de santo, da umbanda, de outras religiões e até gente que nem tem uma específica. E esta característica é antiga, como mostra a edição de 2 de fevereiro de 1944:

“Brancos e pretos, ricos e pobres, reuniram-se todos na praia de Sant’Ana, para a oferta dos presentes. Belas mulatas de saias rodadas, torços de seda, panos da costa, chinelinhas na ponta dos pés, pulseiras e colares de oiro, barangandans, juntavam-se de senhoras de vestidos de seda, de moças de calças de casemira, a rapazes de blusões hawaianos. Batem atabaques, roncam cuícas, soam violões, ouvem-se pancadas de tamborins, formam-se rodas de samba. Há um sol brilhante e quente. Sua-se. As barracas de refrescos fazem negócios. Os bondes continuam a despejar gente, vinda de todos os cantos.” (A TARDE, 2/2/1944, p.2).

A reprodução de trechos das edições de A TARDE mantém a grafia ortográfica do período. Fontes: Edições de A TARDECedoc A TARDE. Para saber mais: Mar Morto (Jorge Amado, Companhia das Letras, 2012); Ladinos e Crioulos-Estudos sobre o negro no Brasil (Edison Carneiro, Civilização Brasileira, 1964).

*Cleidiana Ramos é jornalista e doutora em antropologia

Matéria  publicada no portal  A TARDE  em 30/01/2021

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