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Primeiro bolsista trans da Fafesb é estudante da UFSB

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Tudo que o estudante de licenciatura em artes baiano Jean Isaac Lemos Costa, 20, enxerga tem forma de som. A vida do jovem, que também é produtor musical,  é guiada por notas musicais e foi isso que o levou a ser o primeiro bolsista trans da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado da Bahia. O trabalho de pesquisa de iniciação científica começou em outubro e consiste no estudo da iluminação e design de som para a cena, a partir das desobediências de gênero.

A professora doutora e orientadora de Jean na pesquisa, Dodi Tavares Borges Leal, aponta para a demora para que uma bolsa da Fapesb fosse entregue para uma pessoa trans. Mulher trans, ela é a primeira e única docente trans efetiva da UFSB: “Nós ficamos tristes por ter demorado tanto para que esse marco fosse atingido. Entretanto, ficamos felizes pela primeira pessoa trans a receber essa bolsa seja negra. Geralmente, é a população transbranca que rompe os limites das fronteiras da cisgeneridade. O fato do benefício ter ido para um homem trans, negro e baiano é importante pela representatividade”.

Por ser um homem trans negro, Jean constantemente tem que se reafirmar. O estudante diz que pessoas trans pretas são pouco vistas, especialmente, em espaços de conhecimento: “Na transgeneridade, as pessoas pretas não têm o mesmo privilégio das brancas, que possuem uma passabilidade e são lidas como cisgênero”.

Nome social
Para a ativista LGBTQIA+ Paulette Furacão, estudante de pedagogia na Ufba e educadora social, o acesso da primeira pessoa trans à bolsa de pesquisa da Fundação é resultado do avanço nas políticas públicas para transexuais e travestis. Ela ressalta, entretanto, que este é apenas o começo do processo: “Isso é resultado de uma construção da cidadania de mulheres travestis, homens e mulheres trans. Vemos a ocupação de espaços que não eram sonhados há 10 anos”.

No processo de receber a bolsa, o estudante teve o direito ao uso do nome social negado no sistema SEI Bahia. Jean teve que assinar com seu nome civil. Depois da situação, o  pesquisador foi informado que o sistema vai passar por uma atualização para que o direito passe a ser garantido. “Até coisas que são lei no nosso país, como o nome social, se tem dificuldade de acessar. O órgão me mandou um e-mail avisando que  eu seria a primeira pessoa com o nome social no sistema. As próximas pessoas trans terão a possibilidade de usufruir desse direito”.
Segundo Dodi, o estudante vai investigar teoricamente a relação do som, com a iluminação cênica e as desobediências de gênero. Jean teve contato com o trabalho de Dodi junto à comunidade trans na peça Gota Trava, que lhe permitiu ser bolsista de extensão. Mesmo com o projeto de pesquisa, Jean e Dodi Leal vão continuar com o espetáculo.A Secretaria da Administração do Estado da Bahia (Saeb) informa que está prevista para o mês de novembro a atualização do software utilizado pelo SEI Bahia. “Com isso, todos os órgãos e entidades que utilizam o sistema no país terão acesso à funcionalidade que permite assinatura de processos e documentos digitais com o nome social, direito assegurado por lei”, afirma a pasta em nota.

Antes do coronavírus, a peça foi apresentada na 7ª Mostra Internacional de Teatro de São Paulo (MITsp 2020), no quadro da “Encontra de Pedagogias do Teatro: Saberes do Riscar e Arriscar”, com curadoria de Dodi Leal e coordenação de Maria Fernanda Vomero, realizada no eixo pedagógico da mostra.

Única docente trans efetiva da UFSB
Assim como seu orientando, Dodi Leal também é pioneira em ocupar espaços. A docente da UFSB é a primeira professora trans a orientar pesquisa pela Fapesb, a primeira e única docente trans efetiva da UFSB, além de ser a única transgênero na área de artes no ensino superior público federal do país.

Para a professora, ser a pioneira traz responsabilidades já que ela tem um papel de representatividade  para outras pessoas trans. Leal ingressou no corpo docente da UFSB em 2018. Ocupando esse espaço, ela percebe os desafios que é ser uma mulher trans pesquisadora no Brasil: “A pós-graduação do país dá preferência a pessoas cisgênero, tanto na referências de trabalhos quanto na ocupação das vagas de pesquisa. Outro fator excludente é que os concursos públicos para docente, em geral, exigem coisas que a maior parte da população trans não possui. Esse cenário está mudando lentamente pois existem pessoas trans em outras áreas do ensino superior que também estão abrindo espaços”.

 A pesquisa em andamento de Dodi atingiu o primeiro lugar em sua unidade acadêmica tendo em conta tanto o teor do projeto como a produtividade da docente, o que fez com que ela levasse a bolsa de Iniciação Científica da Fapesb para atribuir a um estudante de graduação.

“Pelo fato de ser uma mulher trans, as pessoas não acreditam que eu posso ter conhecimento e ser produtiva. A competição pela bolsa da Fapesb foi acirrada. Ela dá uma credibilidade maior por ser um reconhecimento de excelência em pesquisa. Ao mesmo tempo, o ideário da competitividade foi criado pela cisgeneridade. Neste sentido, acredito que seja importante ocupar estes espaços acadêmicos para modificá-los com novas abordagens que não se guiem por competitividades já que elas sempre excluíram e excluem a população trans”, explica.

A professora doutora fez a transição de gênero durante o doutorado em Psicologia Social na USP, o que permitiu  que ela percebesse a dificuldade que é ser uma pessoa trans na pós-graduação. “Poucas pessoas que transcionaram antes da pós conseguem acessar esse espaço. Quando se transicona durante o curso, se perde oportunidades, como bolsas de estudo e  trabalhos”, conta Dodi Leal.

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