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Sacrifício de Animais nas Religiões Afrobrasileiras

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Existe uma discussão em nosso país que vem crescendo a cada ano. Essa discussão se trata do sacrifício de animais em cultos religiosos e de predominância nas religiões de matriz africana. São várias as posições que defendem e ao mesmo tempo são contra tais sacrifícios. A religião por sua vez é um berço inerente do brasileiro; cada um que vive nesse território tem em si um legado de uma determinada religião – mesmo que a qualquer momento da vida o homem venha a não crer em nada.

É preciso pois esclarecimento aos que muitas vezes falam, digitam e dilatam um discurso preconceituoso para com as religiões de matriz africana. Não é de agora que a religião utiliza tal forma de se conectar ao sagrado e nem por isso feriu a qualquer momento a religião alheia por apontar o que é certo ou o que é errado em seu ponto de vista. A intolerância religiosa é crime em nosso país e cresce a cada dia. Uma mera informação e pesquisa fará você perceber que, diariamente nos alimentamos de carnes de animais e nem por isso nos preocupamos como essa carne foi abatida. A piedade primaz deveria sobrepor a questão religiosa e ir para o social, para então uma suposta proibição do abatimento de animais e posteriormente a comercialização das mesmas ocorrer.

Em discurso no plenário do Supremo Tribunal Federal no ano passado (2018), o Ministro Marco Aurélio chamou a atenção para essa contradição que supracitei: “É irracional proibir o sacrifício de animais quando diariamente a população consome carnes de animais. Além disso, é inadequado limitar a possibilidade de sacrifício de animais às religiões de matriz africana. A proteção ao exercício da liberdade religiosa deve ser linear”. Para o babalorixá Jônatas Deloyá “O axé que alimenta os orixás e por sua vez garantem sustento, está presente no sangue vegetal e animal”. O mesmo reitera que, a religião de matriz africana é milenar, desde a África e trazida ao Brasil pelos nossos ancestrais escravizados, sendo assim, sempre houve o sacrifício animal aonde tem todo um rito e uma comunhão.

A partir da fala explicativa do babalorixá, podemos notar que é algo cultural oriundo da religiosidade de um povo que deve ser respeitado. Toda proibição que afronta o sacrifício pode ser uma medida de cunho intolerante que é praticada para com o povo do axé até os nossos dias de hoje. O próprio pai Jônatas de Oyá continua frisando: “Podemos ver que nos grandes abatedores do Brasil, os animais antes do abate sofrem e são abatidos de forma cruel, ao contrário dos terreiros que há um cuidado para que não haja sofrimento para com os animais. Sendo assim, nosso axé alimenta os Orixás, que por sua vez, nos alimentam garantindo assim o sustendo da vida. Aos Orixás é preparado as vísceras, pés, cabeças e eventualmente asas, e o restante é comido pela comunidade durante as festas dos terreiros”.

“Eu ainda destaco durante meu estudo que existem pesquisa sobre comunidades do nordeste do país que tinham a comida dos Ilês como a única fonte de proteína para os mais pobres. Como dizia minha saudosa Vó Stella de Oxóssi: ‘Se a desculpa para crítica de sacrifício de animais se deve ao fato de eles sere m seres vivos, gostaria de lembrar que laranja, alface, couve também são seres vivos.’ O sacrifício é a condição para a continuidade da vida, valendo lembrar e esclarecer que o sacrifício de animais não é uma prática exclusiva das Religiões Afro-brasileiras. O sangue (ẹ̀jẹ̀) é considerado um dos elementos mais importantes no momento do ritual do sacrifício dos animais pois é considerado o gerador da vida, é utilizado no ritual para que seja realizado o elo da pessoa com o plano espiritual, com o seu duplo. É o fluxo de fluído vital, estabelecendo um vínculo de união com o sobrenatural. A carne do animal deve ser preparada para alimentar o maior número de pessoas possíveis, causando um bem maior. Por fim termino com essa frase do pai Cido da Oxum: ‘No dia em que um homem engolir uma galinha inteira, viva, sem tirar as penas, o sangue, as vísceras; no dia em que um parto não sangrar e a água não verter sobre a Terra, neste dia eu deixo de cortar para o Orixá’.” Frisou com mais veemência o Babalorixá Jônatas do Terreiro Oyá Omim Igbalé.

Em suma, toda essa discussão é oriunda de uma ação interposta pelo Ministério Público do Rio Grande do Sul contra a decisão do Tribunal de Justiça daquele Estado por permitir o sacrifício de animais destinados à alimentação nos cultos das religiões africanas. É preciso afastarmos o olhar utilitarista quando falamos dos sacrifícios praticados pelos religiosos de matriz africana e começarmos a olhar de uma forma mais respeitosa e de entendimento. Ao contrário disso tudo, será então preciso o Brasil decretar e obrigar a toda sua população “viver como vegetarianos”.

Por Mateus Mozart Dórea – Filósofo pelo destino – Graduando em Direito pela Universidade Católica do Salvador.

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