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Samba, Presidente

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Acordei na última segunda-feira 29 com uma dor de cabeça tremenda por enes motivos que vinha desde o sábado a noite. No sábado sair de casa para esfriar um pouco e me despreocupar com toda sufocação que uma eleição provoca na população de um país. Passei na livraria, encontrei com um amigo, tomamos um café e juntos conversamos sobre os dilemas humanos e consequentemente a política veio ao hall de paraquedas. Em uma livraria que gosto muito – A Saraiva do “Shopping Iguatemi”, as cadeiras e mesas já me conhecem. Para você ter uma noção, já acompanhei a gestação e o crescimento da filha de Neide – a moça que faz questão de me servir um bom café que só aquela livraria me proporciona.

 

Ao sair  da livraria pensei que iria ficar livre de toda aquela sufocação que me acompanhava com o devaneio de que iria “esfriar”, iria me distrair e esquecer um pouco toda situação tensa. Fui parar em uma mesa de bar com outro “colega” que propôs bebermos umas brejas – uma tal sub 0, que acredito ser a proporcionante dessa minha dor de cabeça. Mais uma vez, pura ilusão… caímos na tentação de conversar sobre política, sobre os nossos medos, anseios e preocupações. Acabei retornando para casa com a mesma angústia que sair. Acredito que estava sentindo o que esses meninos – da minha idade – sentem após um dia de ressaca por conta de uma balada para preencher algo: um vazio existencial.

 

Ao chegar em casa um pouco sóbrio me recordava de uma música cantada e lançada por Daniela Mercury neste ano: Samba Presidente. Que música! Lembro que a escutei dias antes do carnaval e pensei comigo: esse será o hino da resistência misturado com a cultura de um povo guerreiro e forte. A letra fala toda essa realidade que parece um pesadelo. Seria uma profecia, Daniela? Um trecho da música diz: “[…] O samba serviu pra falar da dor. O samba brigou. O samba se zangou. O samba repercutiu, O samba sapateou. O samba reclamou. Ninguém ouviu […].” Que verdade! Esse samba foi a população que lutou até o último segundo contra todo discurso de ódio e opressão. Esse samba foi você, Daniela e Margareth, foram os artistas, os professores, os intelectuais, os nordestinos, completamente todos que gritaram: não, ele não!

 

Apesar dos apesares, engolimos tudo em pleno silêncio. É típico e como se fosse algo inerente do povo brasileiro. Mas em tempos sombrios é preciso acordar e resistir! Temos que combater o “pão e circo” a ilusão e as falsas convicções. Combater com diálogos fundamentados na verdade e não em fake news. É triste ver que agora no final do ano e até mesmo no carnaval ninguém mais se lembrará do que fizemos de preocupante para o país. Já diz a música de Daniela: “[…] A cidade empobrecida dança empoderada. São oito dias de alegria. Noutros dias nada

A cidade entristecida dança com a negrada. Canta e dança: Eu sou negão. Enquanto dá porrada. A cidade entristecida dança enfeitiçada. E se esquece da miséria, miséria cultivada. A cidade dividida dança ensandecida. Sem fedor, nem desamor enquanto é agredida. A cidade ensanguentada dança calada. E enfrenta sua alegria fantasiada, Fantasiada […]”

 

Em suma, minha dor de cabeça não passou e cair na real que a mesma deverá perdurar até um bom tempo. É preciso dizer: Samba, presidente! Samba que nós iremos tocar os instrumentos da luta e da fiscalização. Samba porque é preciso mostrar para que veio. Colocar de lado toda forma de intolerância e aprender que é com diálogo e respeito que a inclusão, a democracia e um bom governo se faz. Mas não mexa com os artistas! “[…] Mexa com os artistas, que mexeu com o povo. Mexa, mexa, mexa, mexa, mexa […].”

 

Por Mateus Mozart Dórea – Filósofo pelo destino – Graduando em Direito pela Universidade Católica do Salvador.

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