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São João – Entrevista do Cantor e Compositor Del Feliz

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Era dia 07 de junho de 2019 quando cheguei e adentrei a uma delicatessen no bairro da Graça aqui em Salvador. Não demorou muito e meu entrevistado chegou… Del Feliz, nosso querido cantor forrozeiro me saudou e disse que estava pronto para responder todas as perguntas que tinha preparado para ele. O som musical da delicatessen era do rei Luiz Gonzaga que bem baixo cantava entoando as mais belas músicas do rei do baião. Até parece que tudo tinha sido programado… aquela mesa, aquele fundo musical eu e Del Feliz, dois nordestinos, uma única cultura e um propósito: trazer para vocês uma experiência de vida tão bela.

Del Feliz é cantor e compositor, nascido no interior da nossa querida Bahia especialmente na cidade de Riachão do Jacuípe foi influenciado pela sua mãe, Dona Nicinha e pelos seus tios que sempre foram guardiões da cultura popular. Del já foi pintor, pedreiro, feirante, radialista e despertou-se para a música indo cantar em barzinhos em Feira de Santana e aqui em Salvador. O mesmo cresceu por méritos próprios e por dedicação a nossa cultura nordestina tendo participações com grandes nomes da nossa música brasileira como: Maria Bethânia, Dudu Nobre, Geraldo Azevedo, Dominguinhos, Elba Ramalho e entre outros nomes. Del Feliz participou em 2015 do The Voice Brasil e tem percorrido vários países difundindo a nossa cultura e nosso querido forró nordestino. Venha comigo e desfrute dessa bela entrevista que Del cedeu para mim.

Como foi o início da sua carreira e qual inspiração para cantar?

Del Feliz:  Eu sempre falo da minha relação familiar com minha mãe e com meus tios. Minha mãe sempre cantava reisado, chula, samba, era lavadeira que consequentemente cantava também no rio. Mainha era cantora e até hoje canta muito bem com seus 78 anos, foi minha inspiração e ainda é. Minha mãe cantava para nós nos momentos mais difíceis e tenho um olhar muito carinhoso para tudo isso e acho que as aprendizagens que tive com minha mãe vai além da música, me faz uma pessoa realizada. Diante de todas as dificuldades, minha mãe sempre  foi generosa e nos ensinou que sempre tinha algo para compartilhar e fazia sempre essa pergunta: O que é que a gente ainda tem para oferecer frente a todas essas dificuldades?

Foto: http://entrecultura.com.br/app/storage/2018/03/thumbnail_Delabraaporta.jpg

Por quê escolher o forró?

Del Feliz: Essa história de escolher o forró é um pouco de eu ter escolhido e o próprio forró me escolher. Na minha infância a minha relação com a festa mais importante em todos os sentidos, era com o São João. Na escola a gente tinha a quadrilha junina, as brincadeiras de quebra pote, pau de sebo, uma série de coisas que eu gostava. Então, ganhávamos uma roupinha diferente, as músicas floresciam nos rádios, nos vizinhos, sempre tocando trio nordestino, Luiz Gonzaga, tinha muito serviço de publicidade sobre tudo isso. Nem se quer energia elétrica tínhamos lá, mas durante todo o processo foi marcante a presença do forró e do São João como uma festa para todas as idades, as brincadeiras, a dança, enfim, quando comecei a minha carreira cantei de tudo, cantei na noite e eu tinha que escolher uma coisa, óbvio que, sobressaiu o que me identificava mais que era o forró.

Del, algumas profissões antecederam a sua vinda ao mundo da música. Qual lição você retira delas?

Del Feliz: Todas as experiências profissionais que eu tive me ensinaram. Eu cresci com uma ideia de que eu sabia fazer tudo e isso foi sendo passado para as pessoas porque tudo que eu fazia, procurava fazer bem feito. Então, criei  fama daquele que faz tudo. Para vender geladinho, queria ser o melhor vendedor; para ser pintor, queria ser o melhor pintor; telefonista, chegou o telefone – chama Del que ele sabe – então, já estava com a fama que sabia de tudo um pouco e me preocupava em fazer bem feito. Virou uma bola de neve e tudo que foi surgindo eu fui entrando, inclusive na primeira banda. A partir dos meus 11 anos um pessoal foram montar uma banda e perguntaram o que eu sabia tocar porque eu tinha a fama que fazia tudo e eu perguntei o que estava faltando na banda, era percussão, falei que era aquilo que eu tocava (risos), não sabia nem o que era percussionista, mas deu certo. Na minha vida sempre foi assim de desafios  que eram bobagem e eu deveria superar, Comemoro todos os dias ter vivido tantas experiências, algumas não tão boas assim, mas seguramente todas elas me fizeram mais fortes e todas dignas porque trabalhar nunca é indigno, nunca envergonha.

Em 2015 fiquei surpreso com a sua participação no The Voice Brasil – já que te conhecia há algum tempo pois você é bem conhecido na nossa região de Alagoinhas – e você foi aprovado por todos os técnicos. Como foi a sensação de estar lá e representar a nossa terra?

Del Feliz: A maior polêmica dessa participação veio justamente disso em que todo mundo perguntava o que eu queria lá. O próprio Brown reagiu desse jeito. Foram publicadas muitas matérias em diversos jornais que falavam dessa minha passagem no The Voice Brasil e alegavam que eu já era parceiro de Fagner, Maria Bethânia e argumentavam por quê estava lá nesse programa concorrendo com os meninos que estão começando. Respeito a opinião da imprensa, mas isso é de uma insensibilidade tamanha porque não é o fato de eu ter uma carreira de participações dessas pessoas gigantes que me impede de ir no The Voice. Fui consciente de que iria aprender com eles lá, isso não me diminue. Essa troca de experiências é positiva tanto para eles quanto para mim e a relação que tive com Claudinha Leite, com Brown, com Lulu Santos e Michel Teló foi importante. Acho que ali é uma janela muito grande e que a Globo tem uma abrangência enorme, a estrutura extremamente profissional, fui muito respeitado e acho que foi positivo e a vida é isso, uma constante oportunidade da gente crescer e aprender. Ninguém toma o lugar de ninguém. Depois de lá fui reconhecido nas ruas de Londres e de Paris, realmente, a minha participação lá foi marcante.

Del Feliz no The Voice Brasil – 2015 – fonte: http://www.tribunafeirense.com.br/noticias/7802/baiano-del-feliz-entra-no-the-voice-no-dia-do-nordestino.html 

Falando em Alagoinhas, você tem muitas músicas que falam das nossas cidades baianas e movimentos sociais. Duas delas são: a belíssima composição para a minha cidade natal, Itanagra e a composição para o movimento popular acesso linha verde que deu forças à construção da estrada que ligará Alagoinhas – Araçás e Itanagra ao Litoral Norte. Qual a sua ligação com a nossa região e qual a inspiração para compor belas músicas para nós?

Del Feliz: Alagoinhas eu virei cidadão com muito orgulho. Fiz a música para o movimento linha verde e também para Itanagra que tenho orgulho de ser cidadão de lá também. Eu tive uma série de situações que me colocam naquele cenário. Fiz muitos shows grandes ali inclusive no parque Manoelito Argolo, fiz algumas composições para grandes eventos daquela região e para a história daquele lugar inclusive a música que Dominguinhos gravou pelos 100 anos de Luiz Gonzaga foi uma das últimas gravações do mesmo em que tive a honra de poder participar. E ali, na região de Alagoinhas por ser um território das primeiras composições, fui muito bem recebido e gerou esses títulos de cidadão que muito me honra.

Você já teve a honra de cantar com vários ícones da nossa música brasileira. Elenque alguns e me fale quais desses você se sentiu mais emocionado?

Del Feliz: Uma das maiores emoções foi Dominguinhos porque foi no início da minha carreira e ele foi muito generoso. Uma simplicidade em pessoa, mas se eu te disser que vários deles me emocionaram é que a tônica da minha carreira são as parcerias. Me emociona a parceria com Elba Ramalho, com Michel Teló, com Dudu Nobre, cada parceria dessa traz uma energia diferente. Cantar com Saulo, por exemplo, no meu último DVD, foi maravilhoso. Todos esses contatos musicais se transforma em uma maneira de crescimento, uma extensão da minha história. Estou construindo história com pessoas  que tem uma história definitiva com a música brasileira.

Qual composição você mais gosta?

Del Feliz:  É difícil eu falar em uma composição preferida. Posso falar de uma composição marcante para mim do primeiro CD que foi a música “mainha”. Foi uma música que eu fiz em homenagem a minha mãe, a pessoa que é mais importante para mim e para a minha história. Fiz em homenagem para ela e fala de uma coisa muito forte que é “você nunca tinha fome quando a comida era pouca para nada nos faltar e hoje eu posso agradecer pois ser rico é ter você e ainda poder cantar.” É uma música que marca muito, eu chorava toda vez que cantava. Atualmente tem uma música que gosto muito que se chama “Que tal”, uma reflexão que diz: “ser mais do que ter pra ter o que dar, ser mais do que ter e compartilhar.”

Estamos no mês da melhor e mais bela festa do nosso país: a festa junina. O que é a Festa de São João para Del Feliz?

Del Feliz: Acima de qualquer coisa alegria e comunhão. É uma festa da cultura da gente mais completa. Ela é inclusiva porque envolve do jovem aos mais velhos; ela é envolve a nossa comida, a nossa bebida, nossa dança, nossas cores, música, poesia, nosso jeito de ser. Acho que devemos preservar essa identidade que atrai pessoas do mundo inteiro. Estou viajando o mundo, indo a vários países e as pessoas querem vir para cá conhecer. A cultura é volátil, vai se transformando, mas existe os órgãos de cultura para podermos preservar de algum modo aquilo que ocupou um espaço importante e representa a essência das pessoas nordestinas.  A festa junina envolve a alma do nordeste, é a festa cultural mais completa do Brasil. A festa junina para mim, é minha alma, meu tudo.

Muitas foram as cidades que você já passou nesse período junino. Qual a festa que mais marcou a sua carreira?

Del Feliz: É outra pergunta que não dá para responder simplesmente assim porque já cantei em Campina Grande, Senhor do Bonfim, Santo Antonio de Jesus, Amargosa, Camaçari, Salvador, então, não dá para dizer qual festa mais importante. Estive em palcos marcantes. Esse ano, por exemplo, estou indo para o São João do Serrado. Já pisei nos principais palcos juninos do Brasil e cada um deles tem um sabor diferenciado e um valor. A Bahia faz a maior festa junina porque em tudo que é arraial tem uma festa. Claro que esses grandes palcos são interessantes desde que eles privilegiem alguma coisa da nossa cultura. As vezes a emoção veio em um lugar pequeno, em um arraial com a fogueira acesa, um palco, tudo singelo, mas tudo de uma estrutura muito original. A emoção pode vir de um lugar que menos esperar.

Nesse São João de 2019, em quais cidades você irá se apresentar?

Del Feliz: Não dá para citar todas, mas algumas são: Santa Bárbara, Feira de Santana, Piraí do Norte, Amargosa, Amélia Rodrigues, Mundo Novo, Gavião, Salvador, Elísio Medrado, Terra Nova, Teodoro Sampaio.

Nesse período de São João os seus shows terão algum tema ou homenagem específica?

Del Feliz: O último trabalho meu foi batizado de cordel feliz, sou cordelista também e fiz meu último DVD gravado no SESC com Saulo, Armandinho, Adelmário Coelho, uma grande comunhão, convidei um monte de gente. O novo trabalho se chama: Pra Compartilhar. Levamos uma mensagem muito importante e atual, é um show que consegue reunir a tradição de cabeça aberta. A música deve passar uma mensagem, a composição tem que ser entendida. Devemos atualizar no que falamos nas músicas para que muitas pessoas possam ter acesso e nos conhecer.

Recentemente você compôs “O Hino do São João da Bahia” que consequentemente foi gravado por mais de 40 cantores de forró. Como você se sente com essa grande benfeitoria e valorização da nossa música?

Del Feliz: Curioso porque em 2008 fui convidado para fazer o Hino do São João da Bahia e convidei 40 cantores porque achei que não era legítimo cantar sozinho. Hoje a música já tem versões em inglês, francês e espanhol. Para onde vou, canto esse Hino. Amo a minha terra e acho que muito me honra cada música que eu fiz e o Hino do São João da Bahia é um desses símbolos. Essa comunhão, parceria, soma e torna lindo consumando no que meu novo trabalho diz: pra compartilhar. Precisamos exercitar mais a solidariedade, o compartilhamento das coisas boas e não coisas destrutivas.

Fotos: Fabiano Matias.

Além do Brasil, quais outros países Del Feliz já passou difundindo a nossa cultura e a nossa música nordestina?

Del Feliz: Não dá para falar todos, mas cito aqui Estados Unidos, cidade de Boston, Japão, França, cidade de Londres e entre outros. No México fiz uma participação muito marcante com a noite mexicana que é um evento de cultura na capital da cultura mexicana e lá tinham várias regiões sendo representadas e os únicos brasileiros eram eu e o som do sisal de Conceição do Coité. Fomos devolver aos mexicanos o sisal que veio de  lá daquela região. Essa devolução foi em música, foi lindo. Conhecer uma cultura levando a sua, não tem preço.

Finalizando a nossa entrevista, vamos ao bate bola, um jogo de perguntas com uma resposta que você mais se identifica:

Família é? Base

Amigos são? Importantes, por mais que as pessoas digam que são poucos, eu prefiro dizer que eles são importantes além de poucos. Ninguém vai adiante sem o outro.

São João não é São João sem? O Forró

Um cantor (a): É muito difícil… mas escolho Lindú

Uma cidade? A minha, Riachão do Jacuípe, alí está a minha base.

Del Feliz não é Del Feliz sem? Cantar e compor. Não viveria mais sem cantar e compor

Uma música? Mainha, a minha composição e música que me marcou e marca a minha história.

Uma frase?  “Ser mais do que ter pra ter o que dar.” Acho que vivemos em um momento em que damos valor ao que temos e pouco valor ao que somos. Ser mais do que ter é fundamental em qualquer circunstâncias. Quem só tem é muito pobre! A gente só tem para dar quando a gente é. Ninguém tem nada para dar quando somente tem, tem que ser. Tem gente que vive a vida inteira somente em busca de ter e geralmente essas pessoas não consigo conceber que elas sejam felizes.

 

 

 

 

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